"Dá para fazer muito mais" que a presidente Dilma Rousseff. Com esse, digamos, slogan, o governador Eduardo Campos (PSB-PE), de Pernambuco, passou seu recado a um grupo de 60 empresários que se reuniram na quinta-feira (14) em SP, num jantar, para conhecê-lo melhor --e descobrir se ele é, mesmo, candidato à presidência. Boa parte saiu de lá com a certeza de que Campos vai, sim, se lançar contra Dilma em 2014.
O encontro foi na casa do empresário Flávio Rocha, da Riachuelo. E Campos soltou o verbo.
Começou dizendo que o Brasil teve grandes conquistas nas últimas décadas --e logo engatou crítica que a oposição sempre fez a Lula, a Dilma e ao PT: "O Brasil não começou ontem. Não começou com o partido A, B ou C".
Na sequência, engrossou o coro dos que dizem que as coisas no país vão bem --mas podem piorar. "Não há grande incômodo nas grandes massas. Não há na classe média esse sentimento, nem de forma generalizada no empresariado. Mas há, nesse instante, nas elites, grande preocupação com o futuro. Há o sentimento de que as coisas podem piorar."
Os "florais aplicados em todas as crises" não funcionaram desta vez, diz Campos. "E mais do que de repente começa uma série de medidas, em série, em relação a vários setores, sobretudo, no início, na área do petróleo", segue, referindo-se aos pacotes lançados por Dilma. "Há um sobressalto daqueles que foram atingidos e daqueles que não foram atingidos por medidas." Para ele, "se estabelece uma ansiedade total".
"E a tudo isso se somou a antecipação do debate eleitoral", segue o governador, referindo-se, sem citar o nome de Lula, ao fato de o ex-presidente ter lançado Dilma à sucessão presidencial. "Um debate maniqueísta, eu sou o bem, você é o mal."
Na sequência, Campos passa a criticar a campanha presidencial de 2010, quando Dilma Rousseff disputou com José Serra (PSDB-SP). "Nós tivemos uma campanha das mais pobres do ponto de vista do conteúdo. Acusação de lá, defesa de cá. Acusação de cá, defesa de lá. Sinceramente, não dá para respeitar como um debate à altura dos desafios do Brasil. E isso deixou as coisas desamarradas para o futuro."
"Um monte de político se junta e diz: 'Olha, a gente precisa ganhar a Presidência da República'. É como dizia o meu avô [Miguel Arraes]: na política, você encontra 90% dos políticos atrás de ser alguma coisa. Dificilmente eles sabem para que."
É chegada a hora, portanto, de debater. E é o que o governador está fazendo, ainda que desperte a ira de Lula, de Dilma e do PT --até então seus aliados. "Esse é o momento para que o Brasil aprenda a viver com diversidade. Fazer crítica não é ser contra, não é ser inimigo."
(Fonte e Foto: Folha de São Paulo - 16.3.2013 - mais detalhes em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/1247350-da-para-fazer-muito-mais-que-dilma-diz-eduardo-campos-em-jantar-com-empresarios.shtml )
sábado, 16 de março de 2013
Vaticano nega conivência do papa com ditadura
O Vaticano divulgou nesta sexta-feira (15) um comunicado que desmente as informações de que o papa Francisco foi conivente com os crimes cometidos durante a ditadura na Argentina. O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse que as informações são originárias de uma “campanha difamatória” e com “uma forte carga ideológica”. “A campanha contra o cardeal Begoglio [papa Francisco] é conhecida e foi promovida por uma publicação caluniosa e difamatória. A origem é conhecida e notória”, afirmou o porta-voz, ao lembrar que o papa jamais foi denunciado ou punido. “As acusações vêm de elementos anticlericais para atacar a Igreja e devem ser refutadas”, completou. Na Argentina, organizações de direitos humanos divulgaram informações de que o papa Francisco invocou o direito de se recusar a depor em tribunais que julgavam torturas e assassinatos cometidos dentro da Escola de Mecânica da Marinha (Esma). O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno, também negou nesta quinta (14) que o papa Francisco tenha sido omisso ou conivente com a ditadura na Argentina.
(Bahia Notícias)
Oposição critica mudanças e diz que reforma já mira reeleição
Fernando Krakovics, O Globo
(FONTE: O Globo e Política Livre / IMAGEM: Google Imagens)
Lula acha que pode reverter candidatura de Eduardo Campos
Os sinais dados pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, de que disputará a sucessão presidencial em 2014 ainda não convenceram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem o lançamento da candidatura do dirigente do PSB ainda pode ser revertido. Em conversas recentes, com petistas e aliados, o líder do PT avaliou que, no cenário atual, seria muito arriscado para o socialista entrar numa disputa eleitoral, uma vez que, segundo ele, não há espaço no campo da esquerda para mais uma candidatura presidencial.
Caso o socialista queira se viabilizar como candidato, Lula avalia que Campos terá de se aproximar da direita e, assim, abrir mão de bandeiras eleitorais do atual governo federal, como o combate à miséria e a ascensão da população à classe média. O líder do PT ainda considera cedo debater a sucessão ao Planalto com o dirigente do PSB, o que deve ser feito apenas no segundo semestre, quando pretende chamar o socialista para uma conversa em São Paulo, na qual irá alegar que o lançamento da candidatura do PSB poderá dividir e enfraquecer a esquerda.
Caso o socialista queira se viabilizar como candidato, Lula avalia que Campos terá de se aproximar da direita e, assim, abrir mão de bandeiras eleitorais do atual governo federal, como o combate à miséria e a ascensão da população à classe média. O líder do PT ainda considera cedo debater a sucessão ao Planalto com o dirigente do PSB, o que deve ser feito apenas no segundo semestre, quando pretende chamar o socialista para uma conversa em São Paulo, na qual irá alegar que o lançamento da candidatura do PSB poderá dividir e enfraquecer a esquerda.
Em encontro, no final do mês passado, Eduardo Campos informou à presidente Dilma Rousseff que o PSB decidirá pela candidatura própria apenas em 2014 e que, até lá, continuará na base aliada do governo federal. Nas últimas semanas, contudo, o dirigente do PSB tem mantido diálogos com PPS, PDT e PTB e se aproximado de setores do empresariado. Na quinta-feira, o socialista compareceu a jantar na residência do empresário Flávio Rocha, dono da rede de lojas Riachuelo, e, ontem, participou de almoço promovido pelo Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), em um hotel de São Paulo.
No evento, o socialista afirmou que a presidente sabe que não é hora de o PSB decidir sobre 2014 e ressaltou que, no encontro que tiveram, Dilma deixou claro que o interesse do governo federal é manter uma relação de respeito com o partido neste ano. Segundo ele, quando houver uma decisão, informará à presidente ou ao dirigente nacional do PT, Rui Falcão.
— Ela sabe que não é a hora do PSB decidir. O PSB vai decidir no seu tempo. Ela deixou muito claro que o interesse é seguir com uma relação de respeito com o PSB durante todo o ano de 2013 e deixar 2014 para 2014. Para mim, vale a conversa que tive com ela. Se tiver alguma coisa para dizer ao PT, vou falar com quem efetivamente devo falar: com a presidente ou com o presidente nacional do PT — afirmou.
O dirigente do PSB disse que ainda não foi marcada uma conversa com Lula, mas que estará à disposição do petista e irá ao seu encontro caso ele queira discutir. Na quarta-feira, o ex-presidente iniciou viagem pela África e só retornará ao Brasil no final da semana quem vem.
— Eu fui ministro e sou amigo do ex-presidente, tenho um grande respeito por ele. Todas as vezes que ele precisar falar comigo, estarei à disposição e vou ao encontro dele — disse.
No almoço de ontem, segundo empresários presentes, o dirigente do PSB defendeu que o país precisa definir uma política de comércio exterior mais clara e que o governo federal deve priorizar alguns setores da economia para os quais tem maior vocação. Em sua exposição, ele elogiou o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e apresentou conquistas da sua gestão nas áreas social, educacional e de saúde, as quais, se for candidato, devem lhe servir como bandeiras eleitorais.
Fonte: O GLOBO.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/para-lula-candidatura-de-eduardo-campos-reversivel-7857188#ixzz2NhrxXKMt
© 1996 - 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/para-lula-candidatura-de-eduardo-campos-reversivel-7857188#ixzz2NhrxXKMt
© 1996 - 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
Luiza Bairros e outras petistas usam carro oficial em Encontro partidário
Apesar de ser um evento partidário, o Encontro Nacional de Mulheres Eleitas do PT teve um festival de carros oficiais transportando autoridades. No intervalo de 30 minutos, uma ministra, uma assessora especial do governo federal, uma senadora e uma prefeita chegaram ou foram embora em veículos custeados pelo poder público. O evento transcorreu durante todo o dia de ontem, em um hotel de Brasília, e prosseguirá hoje. Um dos objetivos é orientar prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras petistas, eleitas no ano passado, a desenvolver programas federais nos municípios.
Uma das que compareceram ao evento a bordo de um carro oficial foi a ministra Luiza Bairros (Igualdade Racial). Para o encontro, fechado à imprensa e organizado pelo PT, só foram convidados ministros do partido, e as participantes eram exclusivamente petistas.
— Fui convidada como ministra, então estou cumprindo a minha função. Podia ser qualquer partido — disse a ministra.
Representante da ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), Paula Ravanelli, que é assessora especial da Subchefia de Assuntos Federativos, chegou em carro com o adesivo “Uso exclusivo a serviço da Presidência da República”, placa JJV 0019. Indagada sobre a pertinência da utilização do veículo naquela ocasião, ela não quis responder.
A Resolução 7 de 2002, que regula a participação de autoridades em atividades de natureza político-eleitoral, estabelece, no artigo 2º, que a autoridade pública não poderá participar de reuniões de partidos políticos durante o horário normal de expediente e veda a utilização de veículos oficiais.
Já o Código de Conduta da Alta Administração Federal, ao responder à pergunta “Pode ministro de Estado utilizar veículo oficial em todos os seus deslocamentos?”, diz que “o uso de carros oficiais por ministros de Estado é matéria tratada por normas administrativas que levam em conta a criação das condições necessárias, sobretudo de segurança, para todos os seus deslocamentos”.
A senadora Ana Rita (PT-ES), que participou da mesa “O modo petista de governar e legislar”, afirmou que estava usando carro oficial porque voltaria para o Senado para trabalhar:
— Se não, teria que vir de táxi.
Mais tarde, a assessoria de imprensa da senadora telefonou para dizer que Ana Rita usou o carro do Senado porque estava em uma atividade do mandato. Os senadores têm direito ao uso de um veículo oficial em Brasília. A cota diária de combustível é de dez litros de gasolina ou 14 litros de álcool, de segunda a sexta-feira.
Já a prefeita de Valparaíso de Goiás, cidade a 36 km de Brasília, Professora Lucimar (PT), justificou que foi ao encontro do partido no carro da prefeitura porque aproveitou a ida à capital para visitar órgãos federais e tratar de interesses de seu município:
— A gente até debateu isso ontem (anteontem) lá. Como eu vim participar de outros compromissos oficiais, vim no carro da prefeitura.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/frota-de-chapa-branca-em-encontro-do-pt-7857163#ixzz2NhrEsep2
© 1996 - 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
Uma das que compareceram ao evento a bordo de um carro oficial foi a ministra Luiza Bairros (Igualdade Racial). Para o encontro, fechado à imprensa e organizado pelo PT, só foram convidados ministros do partido, e as participantes eram exclusivamente petistas.
— Fui convidada como ministra, então estou cumprindo a minha função. Podia ser qualquer partido — disse a ministra.
Representante da ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), Paula Ravanelli, que é assessora especial da Subchefia de Assuntos Federativos, chegou em carro com o adesivo “Uso exclusivo a serviço da Presidência da República”, placa JJV 0019. Indagada sobre a pertinência da utilização do veículo naquela ocasião, ela não quis responder.
A Resolução 7 de 2002, que regula a participação de autoridades em atividades de natureza político-eleitoral, estabelece, no artigo 2º, que a autoridade pública não poderá participar de reuniões de partidos políticos durante o horário normal de expediente e veda a utilização de veículos oficiais.
Já o Código de Conduta da Alta Administração Federal, ao responder à pergunta “Pode ministro de Estado utilizar veículo oficial em todos os seus deslocamentos?”, diz que “o uso de carros oficiais por ministros de Estado é matéria tratada por normas administrativas que levam em conta a criação das condições necessárias, sobretudo de segurança, para todos os seus deslocamentos”.
A senadora Ana Rita (PT-ES), que participou da mesa “O modo petista de governar e legislar”, afirmou que estava usando carro oficial porque voltaria para o Senado para trabalhar:
— Se não, teria que vir de táxi.
Mais tarde, a assessoria de imprensa da senadora telefonou para dizer que Ana Rita usou o carro do Senado porque estava em uma atividade do mandato. Os senadores têm direito ao uso de um veículo oficial em Brasília. A cota diária de combustível é de dez litros de gasolina ou 14 litros de álcool, de segunda a sexta-feira.
Já a prefeita de Valparaíso de Goiás, cidade a 36 km de Brasília, Professora Lucimar (PT), justificou que foi ao encontro do partido no carro da prefeitura porque aproveitou a ida à capital para visitar órgãos federais e tratar de interesses de seu município:
— A gente até debateu isso ontem (anteontem) lá. Como eu vim participar de outros compromissos oficiais, vim no carro da prefeitura.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/frota-de-chapa-branca-em-encontro-do-pt-7857163#ixzz2NhrEsep2
© 1996 - 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Feliciano deve ser criticado por trajetória e não por ser evangélico, diz Marina
Evangélica, a ex-senadora Marina Silva criticou nesta quinta-feira a eleição do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, mas afirmou que não se pode atacá-lo por sua religião.
"Eu acho que a gente não pode fazer uma discussão baseada na religião dos deputados ou de quem não tem religião. Você tem que analisar a posição política, o deputado tem de ser olhado pelas suas posições politicas", afirmou durante ato de coleta de assinaturas para a fundação de seu novo partido, a Rede Sustentabilidade, em São Paulo.
Deputado emprega pastores que só trabalham na igreja
Primeira reunião de Feliciano em comissão da Câmara tem protestos e bate-boca
Ministra diz que Câmara 'precisa ouvir sociedade' sobre pastor em comissão
Análise: Deputado Feliciano é apenas o sintoma, não a causa, da crise
Marina comparou a eleição de Feliciano à do produtor rural Blairo Maggi (PR-MT) para a presidência da comissão de Meio Ambiente do Senado, e disse que se deve olhar para o "conjunto do Congresso".
"Para ampliar sua base, o governo acaba negociando as comissões para pessoas que não têm identidade histórica com o mérito delas", afirmou.
(Folha de São Paulo, 14.3.2013)
"Eu acho que a gente não pode fazer uma discussão baseada na religião dos deputados ou de quem não tem religião. Você tem que analisar a posição política, o deputado tem de ser olhado pelas suas posições politicas", afirmou durante ato de coleta de assinaturas para a fundação de seu novo partido, a Rede Sustentabilidade, em São Paulo.
Deputado emprega pastores que só trabalham na igreja
Primeira reunião de Feliciano em comissão da Câmara tem protestos e bate-boca
Ministra diz que Câmara 'precisa ouvir sociedade' sobre pastor em comissão
Análise: Deputado Feliciano é apenas o sintoma, não a causa, da crise
Marina comparou a eleição de Feliciano à do produtor rural Blairo Maggi (PR-MT) para a presidência da comissão de Meio Ambiente do Senado, e disse que se deve olhar para o "conjunto do Congresso".
"Para ampliar sua base, o governo acaba negociando as comissões para pessoas que não têm identidade histórica com o mérito delas", afirmou.
(Folha de São Paulo, 14.3.2013)
Valores da Mudança* por Marina Silva
Comentando um artigo que denunciava um desses golpes na internet para tirar dinheiro dos incautos, um cidadão declarou seu receio em investir agora, preferia esperar mais um pouco. Impressionou-me que ele não questionasse a legitimidade, mas apenas a oportunidade do negócio. Eis, a meu ver, o centro da crise civilizatória: o ganho material e imediato, como medida dos valores, e a indução a fazer qualquer coisa para consegui-lo.
No Estado, como no mercado, se as negociações forem feitas com os mesmos valores e métodos da partilha de um butim, vamos naturalizar a divisão de poder entre pessoas cujo histórico recomenda o contrário. E mesmo o debate sobre questões estratégicas pode ser contaminado pela disputa de interesses imediatos de grupos econômicos ou políticos.
Para os cidadãos que não aderem ao vale-tudo e ainda sonham com uma sociedade eticamente sustentável, o esforço de "estar no mundo sem ser do mundo" leva à busca esperançosa de contribuir para as necessárias mudanças. Mais uma vez, a sabedoria popular recomenda que se comece em casa.
Por isso, minha esperança se renova quando vejo exemplos de lucidez e desapego aos ganhos materiais e imediatos. No debate público recente sobre comissões na Câmara e no Senado, palavras ponderadas vieram de pessoas que não se envolvem no bate-boca em que se responde um preconceito com outro, mas mostram a responsabilidade dos escalões mais altos, em que se dá a negociação dos cargos. Prejuízos sociais e ambientais são inevitáveis ao se trocar a primogenitura do bem comum pelas lentilhas do vale-tudo na política.
A autolimitação é pré-requisito da liberdade, sem ela nos tornamos escravos do tirano que nós mesmos podemos ser. Os resultados desse difícil, porém necessário, esforço não são imediatos, mas, mesmo quando nada parece acontecer, é a partir dele que as pessoas se dispõem a ouvir umas às outras, formar novas relações e tecer os consensos possíveis.
Alguns gestos são simbólicos, sua força consiste em promover reflexões. Não podemos desconhecer, por exemplo, a renúncia do papa Bento 16 e o reconhecimento da necessidade de mudanças por parte da Igreja Católica na escolha do novo papa. Milhões de pessoas, em todo o mundo, são agora alcançados por um novo nome, Francisco, carregado de significados históricos que induzem a considerar a simplicidade e o convívio harmonioso com a natureza como valores necessários à superação da crise civilizatória.
A lucidez, o desapego ao poder e a capacidade de ouvir não são valores exclusivos. Não é preciso ser crente nem ateu, progressista ou conservador, nem é preciso deixar de ser. Reconhecer o gesto e a palavra do outro não ameaça a identidade de ninguém.
* Marina Silva, ex-senadora, foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula e candidata ao Planalto em 2010. Escreve às sextas na versão impressa da Página A2. Artigo publicada na Folha de São Paulo, 15 de março de 2012.
No Estado, como no mercado, se as negociações forem feitas com os mesmos valores e métodos da partilha de um butim, vamos naturalizar a divisão de poder entre pessoas cujo histórico recomenda o contrário. E mesmo o debate sobre questões estratégicas pode ser contaminado pela disputa de interesses imediatos de grupos econômicos ou políticos.
Para os cidadãos que não aderem ao vale-tudo e ainda sonham com uma sociedade eticamente sustentável, o esforço de "estar no mundo sem ser do mundo" leva à busca esperançosa de contribuir para as necessárias mudanças. Mais uma vez, a sabedoria popular recomenda que se comece em casa.
Por isso, minha esperança se renova quando vejo exemplos de lucidez e desapego aos ganhos materiais e imediatos. No debate público recente sobre comissões na Câmara e no Senado, palavras ponderadas vieram de pessoas que não se envolvem no bate-boca em que se responde um preconceito com outro, mas mostram a responsabilidade dos escalões mais altos, em que se dá a negociação dos cargos. Prejuízos sociais e ambientais são inevitáveis ao se trocar a primogenitura do bem comum pelas lentilhas do vale-tudo na política.
A autolimitação é pré-requisito da liberdade, sem ela nos tornamos escravos do tirano que nós mesmos podemos ser. Os resultados desse difícil, porém necessário, esforço não são imediatos, mas, mesmo quando nada parece acontecer, é a partir dele que as pessoas se dispõem a ouvir umas às outras, formar novas relações e tecer os consensos possíveis.
Alguns gestos são simbólicos, sua força consiste em promover reflexões. Não podemos desconhecer, por exemplo, a renúncia do papa Bento 16 e o reconhecimento da necessidade de mudanças por parte da Igreja Católica na escolha do novo papa. Milhões de pessoas, em todo o mundo, são agora alcançados por um novo nome, Francisco, carregado de significados históricos que induzem a considerar a simplicidade e o convívio harmonioso com a natureza como valores necessários à superação da crise civilizatória.
A lucidez, o desapego ao poder e a capacidade de ouvir não são valores exclusivos. Não é preciso ser crente nem ateu, progressista ou conservador, nem é preciso deixar de ser. Reconhecer o gesto e a palavra do outro não ameaça a identidade de ninguém.
* Marina Silva, ex-senadora, foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula e candidata ao Planalto em 2010. Escreve às sextas na versão impressa da Página A2. Artigo publicada na Folha de São Paulo, 15 de março de 2012.
Assinar:
Postagens (Atom)






