segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Escolas para poucos

Os colégios públicos mais bem colocados no Enem têm alunos qualificados e ótima infraestrutura, mas são exceções na rede de ensino do Brasil

Raquel Maldonado
raquel.maldonado@folhauniversal.com.br


Bom desempenho em avaliações nacionais e nos vestibulares das universidades mais tradicionais, alunos bem preparados e com formação crítica e política, professores dedicados e motivados e infraestrutura de dar inveja a muitas instituições particulares. Essas são as principais características dos 13 colégios públicos entre os 100 mais bem colocados no ranking do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2010. Apesar do comprovado ensino de excelência que estas escolas conseguem oferecer, a realidade de toda a rede pública no País ainda está muito longe do ideal. Além do abismo entre o público e o privado, nenhuma das escolas públicas da lista é municipal ou estadual de ingresso regular, ou seja, todas elas são militares, federais, técnicas estaduais ou ligadas a alguma universidade.

O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa, que ficou na 1ª posição entre as públicas e na 8ª na classificação geral, é um exemplo.  O diretor Hélio Paulo Pereira Filho se orgulha da infraestrutura a que seus alunos e professores têm acesso. “Estamos dentro de uma universidade e nossos alunos convivem neste ambiente desde o primeiro ano do ensino médio. Quando não estão assistindo aulas, estão na biblioteca, discutindo ou participando de atividades. A maioria dos professores tem dedicação exclusiva e tanto eles quanto o corpo técnico administrativo são bem capacitados e nossos alunos são selecionados entre os melhores do ensino fundamental. Tudo isso favorece a qualidade do ensino que praticamos”, pontua o diretor.

“Não tem fórmula mágica. O que existe é uma grande disposição de todos os envolvidos no processo de aprendizagem – professores, funcionários, alunos e pais –, para que os jovens tenham as melhores condições de desenvolver suas habilidades”, afirma Nair Matiko Hara, coordenadora pedagógica da Escola Técnica Estadual de São Paulo (Etesp).

“Não podemos tomar esses 13 colégios como representatividade total das escolas públicas do País. Para começar, para entrar nessas escolas os alunos passam por um processo de seleção. Então, essas escolas trabalham apenas com os melhores. Além disso, enquanto a maioria dos professores desses colégios tem doutorado, os das demais escolas penam para concluir o ensino superior. É triste, mas hoje no Brasil existem ilhas de excelência, mas um mar inteiro de descaso”, destaca Geraldo Almeida, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).


Os alunos Laura Viana, Lívia Morales, Gabriela Beira e Cássio José Santos, todos de 17 anos e matriculados no terceiro ano do ensino médio da Etesp, são conscientes de que o método seletivo para o ingresso no colégio não é democrático. “Dos 40 alunos da nossa sala, apenas cinco vieram de escola pública. Acho que uma presença maior de pessoas com nível socioeconômico menor contribuiria muito para as discussões que temos em sala”, avalia Laura, que pretende prestar vestibular para Jornalismo no ano que vem. Entretanto, ela acredita que o fato de os alunos terem tido mais oportunidades de aprender no passado contribui para que o modelo dê certo. “A qualidade da escola tem muito a ver com o tipo de estudantes que temos aqui”, emenda.

Na opinião de Manolo Perez Vilches, mestre e doutor em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), os chamados vestibulinhos não são justos, mas são necessários. “Essas escolas são muito procuradas por conta dos bons resultados, então é preciso fazer seleção. Alguns processos são mais democráticos, com cotas para quem veio de escola pública, mas acredito que não podemos exigir outra coisa dos diretores dessas instituições. Existe um investimento grande, então é justo que eles queiram os alunos mais aplicados, aqueles que têm mais vontade de aprender e condições para isso”, pontua.

José Carlos Alves de Souza, diretor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), destaca a carga horária como um dos diferenciais das escolas mais bem colocadas no exame. “Temos uma carga horária de 1.300 horas anuais, enquanto na rede pública regular são 800 horas. Isso significa que o aluno chega aqui às 7h20 e, em dois ou três dias da semana, ele vai pra casa somente depois das 16h”, afirma o diretor que ainda diz acreditar que não deveria ser uma surpresa o bom desempenho dessas escolas. “Esses colégios foram criados exatamente para serem escolas-modelo dentro da rede pública”, complementa.

Para Claudio Gomes, vice-diretor de ensino e informação da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), no Rio de Janeiro, o bom resultado se deve às condições adequadas para o trabalho pedagógico. “Se essas condições estruturais fossem reproduzidas na rede pública, os resultados seriam outros certamente. Essas escolas têm condições estruturais diferenciadas e maior aporte de recursos. Os professores são mais bem remunerados, têm plano de carreira. Tudo isso influencia no resultado final”, diz. (FOLHA UNIVERSAL)

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